A noite estava escura, ameaçava um grande temporal, o medo e o pânico entravam pelas casas como os fantasmas pelas mansões assombradas. As pessoas corriam para os seus lares, a luz diminuía lentamente até que, a certa altura, falhou de vez. Ouviram-se gritos oriundos de todos os lados, os mais novos, apavorados, em busca do colo quente dos seus pais, gritavam. Os mais velhos tentavam controlar os seus medos dando as mãos, sorrateiramente, para que as crianças não ficassem ainda mais inquietadas.
Só eu vagueava sozinha pela noite, pressentindo algo de terrível, mas com uma imensa vontade de estar só. Passei por todos os locais habituais, desde a escola, as casas dos meus amigos, pastelarias, cafés, restaurantes a casa dos meus avós, chegando por fim à igreja. Não sabia ao certo o que se passava dentro de mim, apenas sentia um enorme vazio pois nenhum dos locais anteriores me tinha despertado interesse, era como se não os conhecesse.
Pé entre pé entro na igreja e um sentimento apenas, começava a urgir, a insegurança, a incerteza de reconhecer aquele lugar. Observava cada milímetro da igreja sem saber ao certo o que se estava a passar. Vagueei pela igreja até chegar ao coro, meu rico coro. Ao passar lá vi, revi todos os momentos que tinha vivido ali, desde mágoas a alegrias, choros a, principalmente, sorrisos. Começo a reconhecer quem sou.
Ao fundo de mim começo a sentir uma música, a minha preferida, “o Renasce”, deixei-me envolver pela harmonia.
A certo momento o vento intensifica-se, entra pela porta que eu tivera deixado entreaberta, caí redonda no chão, embalada pelo sopro, desmaiei.
Foi nesse preciso momento que Acordei… Tinha acabado de chegar a Coimbra. Vi a torre da universidade, o rio Mondego, a Sé Nova, a baixa de Coimbra.
Tinha sido apenas um pesadelo… Felizmente.